Punk Comix (4)
Neste cenário onde pouco se publica, as abordagens mais pessoais de criação passaram pelos fanzines. Foram estas publicações amadoras que preencheram o vácuo sentido entre as revistas Visão e a Lx Comics, e desta última ao “boom” trazido pela Bedeteca de Lisboa. Esta instituição municipal, fundada em 1996, permitiu recuperar, por exemplo, em álbum O Eterno Passageiro de Luís Félix e Aliás, originalmente publicada em 1991 na revista Kapa. Ou Zé Inocêncio (série humorística de 1993-94) de Nuno Saraiva, ou ainda A minha vida é um esgoto, colectânea de várias BDs de Ana Cortesão dos anos 90. No primeiro caso é um “policial” com uso de fotografia, no segundo é uma série caricatural sobre as desaventuras de um jovem urbano boémio, e no terceiro são ficções urbano-depressivos mas todas elas são obras que revelam a vida portuguesa da década de 90. Tal como uma década depois das loucuras de Relvas podemos colocar na sua continuação lógica a série Loverboy, de Marte (1973) e João Fazenda (1979), que em três livros contam histórias da geração dos anos 90 na sua ressaca Grunge, tunas académicas, drogas e Raves. Os autores são influenciados pelos alternativos norte-americanos e viram os livros lançados por editoras independentes que fizeram parte desse tal “boom” da BD portuguesa entre 1997 e 2002. Como não há muitas obras que descrevam “a realidade” vale a pena inventariar alguns dos mais interessantes projectos que vem desse “boom” até aos dias de hoje: História de Lisboa (Assírio & Alvim; 1998-2000) de A.H. Oliveira Marques (1933-2007) e Filipe Abranches (1965) que deu uma reviravolta ao género BD histórica produzida em Portugal (e no mundo?); Para além dos Olivais (Bedeteca de Lisboa; 2000), um trabalho colectivo dedicado ao bairro lisboeta embora a maior parte do material inclina-se mais para a ficção usando o cenário desse bairro; O Macaco Tozé (MMMNNNRRRG; 2000) de Janus (1971) que faz uma polaroid cinzenta ao “bas-fond” Portuense, mesmo que disfarce o mundo com macacos teromórficos; Nós somos os Mouros (Assírio & Alvim; 2003), um projecto ibérico sobre questões islâmicas com a participação de autores portugueses e espanhóis sobre argumentos do espanhol Felipe Hernández Cava (1963) e João Paulo Cotrim (1965); Á Esquina (Campo das Letras; 2003) de Cotrim e Pedro Burgos (1968), uma colectânea que reúne tiras/crónicas sobre o dia-a-dia lisboeta publicadas no jornal Público entre 1998 e 1999, numa tradição iniciada em Botelho; Cotrim com Miguel Rocha (1968) produziram o livro Salazar : Agora, na hora da sua morte (Parceria A. M. Pereira; 2006), um “best-seller” dentro dos parâmetros do mercado da BD; a colecção BD Pop Rock Português (Tugaland, 2011) de livros com CDs que conta com alguns volumes que são meramente biografias oficiais das bandas, o de Pop Dell’Arte por Fernando Martins é o mais interessante pelo registo autobiográfico do autor na sua relação com a banda e ambiente urbano dos anos 80; e recentemente a Associação Chili Com Carne criou uma colecção de viagens, «para quem não gosta de apanhar transportes e gastar dinheiro», a LowCCCost já com três volumes editados: um sobre uma tournê punk-mas-com-livros pela Europa (Boring Europa, colectivo de autores, 2011), outro sobre a Guiné-Bissau (Kassumai, David Campos; 2013) e o último sobre emigração de criativos portugueses (Zona de Desconforto, colectivo, 2014). Em relação a autores contemporâneos que usam “a realidade” como tema principal do seu trabalho, eles existem, poucos e tal como as bruxas – que se duvida da sua existência, mas que existem, existem!!! Ainda que de forma pouco “oficial” porque os seus trabalhos aparecem em pequenas estruturas editoriais, algumas deles em regime de auto-edição como o meu caso, Marcos Farrajota (1973), que desde 1994 documento a minha “má-vida” no zine Mesinha de Cabeceira e algumas reportagens em BD de concertos (como o DVD de 15º Barroselas Metalfest); Teresa Câmara Pestana (1962) que desde 1995 nos tem presenteado em fanzines alguns episódios da sua vida, alguns em “okupas” na Alemanha, em que mostra que o seu estilo gráfico e de vida estão na linha de Mattt Konture, e por isso será aquilo que se mais aproxima do “punk”; Marco Mendes (1978) é autor de “slices-of-life” no Porto, desde 2004, através de zines com o títulos escabrosos e mostra bem o que significa ser trintão, solteiro, boémio, licenciado e trabalhador precário – é o século XXI a nu; e mais recente, David Campos (1979) tratou sobre a sua experiência numa ONG em Guiné-Bissau no livro Kassumai e na antologia Zona de Desconforto mas nada indica que a autobiografia será o tema dos seus próximos trabalhos. Apesar da produção portuguesa ter sido sempre residual ela nunca perdeu os “zeitgeists” possíveis acompanhando a evolução à escala global – sendo até pioneira ou original como no caso de Bordalo ou de Botelho. Mas entre 2002 e 2004 o mercado “implodiu”, a Bedeteca de Lisboa perdeu protagonismo, as editoras de BD comercial abafaram as pequenas editoras com material comercial que nem sequer interessava ao grande público mas que ocupava bastante espaço comercial nas livrarias, tirando assim espaço às pequenas editoras – a distribuição de BD em Portugal é feita em livrarias generalistas, é de referir que há poucas lojas especializadas e estas importam sobretudo “comics” norte-americanos, ignorando quase sempre a edição nacional. Como foi praticada política de terra queimada por parte das grandes editoras, actualmente pode-se dizer que o mercado encontra-se moribundo seja para a BD comercial seja para a “alternativa”, havendo, ainda assim, as eternas resistências que são projectos editorais de pequenas tiragens como a Associação Chili Com Carne, El Pep, Imprensa Canalha, Kingpin Books, MMMNNNRRRG, Mundo Fantasma / Turbina e Polvo, e claro, edições de autor e fanzines. Neste contexto resumido e para o trabalho KISMIF que se colocam agora as seguintes questões: 1) Existem obras que tratam sobre o punk em Portugal? 2) Que documentação apresentam essas obras sobre a realidade do punk? 3) De que forma o punk é tratado nas BDs? 4) Existem autores que foram / são punks? 5) Havendo autores punks, que estilos gráficos usam? Haverá um estilo gráfico punk português?
Marcos Farrajota |




















